segunda-feira, 31 de dezembro de 2012




Emigraram todos: o Zé, o António, o Rui, o Mané, o Casimiro, o Filipe, o Xavier... e depois os outros, os que emigraram para sempre... os que tinham o passaporte da família e não voltam mais. Permanecem nos vidros das molduras com os seus sorrisos históricos e os seus olhos de segredo. 
Ficamos nós, as mulheres brandas, com os sonhos incompletos e as histórias de amor por terminar. Os votos de fim de ano parecem voláteis e indefinidos como se tivessemos que eleger um só caminho para onde voltar. Não há retorno para os que partiram de mansinho, pois foram com os tempos e os dias e as palavras rápidas. Deixaram-nos expectantes e a querer amar.
Permanentemente.
Permanentamante.
Assim seremos...










sábado, 29 de dezembro de 2012




Estamos no fim de um tempo difícil. E o que vem não será fácil. Fácil é juntarmos a ternura ao tempo e fazermos dele uma era nova: a do reencontro. Os homens ficam sempre com o tempo fácil porque o controlam e as mulheres aguentam o tempo difícil porque há mesmo dias difíceis que as descontrolam. 
Reencontrar a ternura nos braços das mulheres e devolvê-la em abraços fortes e seguros. Homens presentes de mãos abertas. É este o reencontro desejado, também em palavras que fazem do presente uma doçura futura. É preciso suavizar a dificuldade dos dias tão taciturnos e tristes e tardios como se dezembro fosse pequeno para tamanha e calada nostalgia. Falemos, então.
Falemos sem dificuldade do amor. Difícil é ficar silencioso e não dizer nada. Podemos ser poderosos se contornarmos o tempo com a delicadeza de uma frase nunca feita onde cantar seja uma ária fácil de ouvir...









domingo, 23 de dezembro de 2012





É dia de Natal.
Senhor,
que o amor seja perene
e que as doçuras
se repartam pelas casas
e que cada casa
se transforme em
tempo natalício, com o bulício, e o silêncio
a iluminar as janelas. 
Senhor,
não te podemos pedir nada
porque já temos tudo
e num abraço mudo
agradecemos-te a luz
de mais um dia.
Maria.
Fica connosco.









terça-feira, 18 de dezembro de 2012

                                                             
                                               LONJURA


                                     nesta noite de mulheres
                                     o frio aperta
                                     e os beijos por dar
                                     apertam
                                     e aperta a dor nesse peito calado
                                     Que doçura
                                     quando me apertas contra ti
                                     e me passas as mãos pelos cabelos
                                     e me apertas uma madeixa solta...
                                     sempre os cabelos
                                     e as sobrancelhas finas
                                     por onde aperto os dedos
                                     e os pés apertados contra os teus
                                     nesta noite de mulher
                                     com falta de braços
                                     Nesta  noite 
                                     faltam os homens
                                     que nos apertam contra a vida
                                     e nos deixam sós
                                     numa tremenda história de amor
                                     que nunca,
                                     mas nunca mais
                                     ficará perto
















quarta-feira, 12 de dezembro de 2012



Hoje é dia de chuva de palavras. Entre mulheres doridas. Que pena que eu tenho de não haver um truque para transformar a solidão! Em forma de nuvem que despejasse mimos e gestos e beijos e toques de pele e gargalhadas também. E languidez e sexo e espera e desejo. Alguém já deve ter tido uma ideia igual: a de narrar aquela história da solidão que mata, que mói e mortifica o olhar. 
Olho para os olhos das mulheres molhadas pela dor do vazio e vejo nelas o saudoso ser. Ele. O não estar lá. A secura no horizonte de uma íris sem brilho. A chuva cai pelo rosto em lágrimas maternais - tempestades de emoções incontroláveis que descem, qual lava, para libertar o vulcão. É preciso descrever isto, descrever o silêncio das mulheres sós para lhes mostrar que o amor não volta..., nem mais acre, nem mais doce, nem mais...










segunda-feira, 10 de dezembro de 2012



As mulheres muro. As mulheres que se erguem como paredes firmes e não se deixam derrubar. Paredes rugosas e ásperas onde se podem encostar os homens rígidos, impenetráveis, perenemente lógicos e com esquadria. Estes muros de mulheres não deixam que as ervas trepem, que o cardo as pique e que o granizo as queime. Quando alguém se encosta a elas, procura nelas o prazer da rocha brava, e é nelas que se deita, corpo dorido na busca de sol.
As mulheres tenras aparecem como muros baixos, muretes brandos que abrigam apenas os indefesos e deixam-se levar por enxurradas de ternura dispersas pela encosta.
Na hora da escolha, ganham os muros duros que, erguidos para o alto, impõem a sua sombra à masculina pose.








sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

                                        
                                                     Vidraças
                                        
                          Da minha janela ouço as gaivotas
                          e cheira-me a mar
                          como se no vidro se estilhaçassem
                          as ondas...,
                          desejosas de chegar à praia,
                          gotas de água 
                          transformadas em pássaros transparentes.










quinta-feira, 6 de dezembro de 2012





Falar das mulheres é sempre falar de corações truncados, cheios de raízes dispersas por terrenos malfadados. Hoje estivemos a falar das ternuras femininas que ficam por usar: dos corpos que ficam hirtos  por falta de lubrificação, de sorrisos presos e de gestos repartidos e nunca entregues.
Só com a boca aberta se pode falar de mulheres porque dela sai a surpresa e o espanto por tanta dor suprida e por tanta mágoa relaxada.





Os homens estão lá, na boca das mulheres, como batôn necessário e vistoso, como essência dos próprios lábios de carne e sensualidade. Trincam-se os lábios, mas os homens não. Beijamo-los com garra e com espuma que nos adoça o toque e deles dependemos, como se não houvesse fala. Por eles falamos, por eles falimos.








quarta-feira, 5 de dezembro de 2012







Fiz um embrulho à volta do meu coração. Um embrulho lindo, com uma fita azul e umas espigas de trigo seco. E guardo este presente enfeitado à espera das estrelas que o façam brilhar. 










terça-feira, 4 de dezembro de 2012





Quadro do pintor Luís Dourdil (1967)





As palavras são seres vivos: escondem-se com medo nas bocas das pessoas e voam desejosas de liberdade pelo vento fora, necessitadas de espaço e à espera que os outros as transformem em música. Mimam e magoam. São exigentes. Mas é delas que dependemos como um vício. Tocamos nas palavras e sentimos um frémito de ternura, como quando o violino chora por aí. Em português.