Secante
Secaram-se-me as palavras.
Já não tenho nada a discorrer.
Tinha a dizer quando as águas corriam céleres
E o vento afagava as margens
Num abraço.
Quando tudo era sortido e sentido
Como se de uma cascata caíssem gotas...
E cada pingo era um gesto de ternura
E cada palavra encerrava uma pequena história
Do dia-a-dia, do nosso dia
Nunca adiado!
Secaram-se-me as palavras
e ficou só o olhar para o azul,
com chuva ou sem chuva,
com mar ou sem mar,
sem que eu possa enxugar as lágrimas coloridas
que querem dizer:
mágoa, saudade, distância, córrego,
ou mesmo desprezo ou até feridas...
Secaram-se-me as palavras
porque o rio escolheu desaguar noutro mar
e a minha história cristalizou numa folha de papel
que desce o riacho
até se desbotar...
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